As primeiras impressões de ‘A Vida de Rafinha Bastos’

Se teve gente torcendo o nariz pro Saturday Night Live Brasil (e como teve!), este pessoal vai ter que dar o braço a torcer para o piloto de A Vida de Rafinha Bastos, que teve pré-estreia no último sábado, 16 de julho, pelo canal FX. Quem não achou no mínimo bem feito, sinto muito, ou não entendeu a proposta ou realmente não vai com a cara do comediante gaúcho.
Assim como o SNL importa uma fórmula consagrada, A Vida de Rafinha Bastos se apropria de um formato já clássico da TV americana – colocar um comediante vivendo uma versão fictícia de si mesmo. A primeira imagem da série brasileira, Rafinha fazendo seu stand up com o microfone na mão, já remonta a Seinfeld, a sitcom mais popular da TV mundial. Mas a influência, na verdade, é outra: a nova onda de séries gravada com uma câmera dos canais de TV paga americana, que iniciou em 2000 (lá se vão 12 anos) com Curb Your Enthusiasm, de Larry David, e passa por Fat Actress, The Sarah Silverman Program, Louie e Episodes, entre outras. Rafinha aqui é Rafinha, mas um Rafinha de ficção, e o charme aqui é que o formato é inédito no Brasil – pro telespectador leigo não há nenhum objeto direto de comparação, diferente do Saturday Night Live que apanha pra encontrar seu espaço diante de um público acostumado a programas de esquetes tão distintos como o Comédia MTV e o Zorra Total e as inevitáveis comparações com o seu antecedor no canal, o Pânico na TV.

Incrivelmente bem produzido pela Mixer (o que por um lado não deveria ser surpresa, já que o formato se popularizou nos EUA justamente por ser barato; mas motivo de preocupação porque o padrão Fox brasileiro de qualidade era até o momento 9mm: São Paulo, que tem seu lado tosco), o piloto de A Vida de Rafinha Bastos mostra o comediante acuado – pressionado pela justiça, pela esposa (Camila Raffanti, ex-Mothern, linda), pela imprensa (Marília Gabriela, no papel de si mesma) e pelo próprio público (quando percebe que sua plateia está dominada por racistas) -, obrigado a rever os rumos da carreira. Bem escrito e bem editado, o episódio flui bem e só não é ótimo porque falta alguma direção de atores, que faria os diálogos fluírem com a naturalidade que se espera neste tipo de série.
O que é um erro, no entanto, se converte em um plus: Rodrigo Minotauro, ídolo do MMA, acaba roubando a cena no papel do principal conselheiro de Rafinha. Não se iluda, Minotauro é um ator ruim (ou melhor, nem é um ator) mas ganha diálogos dignos de um mestre zen que soam tão absurdos pra um praticante de um esporte tão violento, que, deste paradoxo, gera momentos cômicos autênticos. Bola dentro da produção e do time de roteiristas, formada por Alexandre Soares Silva, Camila Raffanti, Fabio Danesi, Ricardo Tiezzi e pelo próprio Rafinha Bastos.

A maior crítica que se pode fazer ao episódio é que, no fundo, mesmo com todo a temática do politicamente incorreto, o piloto de A Vida de Rafinha Bastos tem uma agenda: é no fundo um grande trabalho de relações públicas, de gestão de crises, refazendo o prestígio do ex-apresentador do CQC. O Rafinha televisivo é no fundo um sujeito boa praça, que paga o preço por seu senso de humor. Quem está acostumado a ver este tipo de comédia na TV americana está acostumado a ver os comediantes se exporem mais – o Larry David é o maior egoísta de Hollywood, a Sarah Silverman é praticamente retardada, a Kirstie Allen obesa-mórbida…
Apesar de ficar nesta zona de conforto, A Vida de Rafinha Bastos manda bem no piloto e aponta boas perspectivas pra série, que estreia no segundo semestre, ainda sem data definida pela FX. O desafio, pelo que se vê na largada, nem é melhorar, mas manter o nível num ritmo de produção contínuo. É ver para crer.
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Thiago FLS
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