As primeiras impressões de ‘Anger Management’
Winning! A palavra, saída da boca de Charlie Sheen, virou meme em 2011. Naquele momento Sheen era um trem descarrilado – com problemas com sexo e drogas e demitido da maior sitcom da TV americana, ele falava em vitória, quando sua vida e aparência indicava simplesmente o contrário. Anger Management, sua nova sitcom, que estreou na semana retrasada nos EUA, é fruto direto deste contexto. Pode ser analisada como uma simples comédia mas, no fundo, é mais do que isto. Afinal, Charlie Sheen perseverou?
Anger Management é, antes de tudo, uma surpresa. Pra começar, é uma sitcom produzida para um canal de TV paga – quando o formato favorito dos canais como o FX são as séries gravadas com uma câmera, mais baratas. Segundo porque, ao contrário do que o título indica, Anger Management tem muito pouco do filme homônimo de 2003, onde Jack Nicholson era o terapeuta que tirava Adam Sandler do sério. Não há nada do irritante personagem de Nicholson no personagem de Sheen, que segue se chamando Charlie, mas desta vez ganhou o sobrenome Goodson.

Bruce Helford, um grande roteirista de sitcoms (foi co-criador da antológica e anárquica The Drew Carey Show), pegou do filme apenas a temática: a terapia para tratamento de raiva. E com ela desenvolveu uma série em torno do momento de Charlie – um homem com uma compulsão, em processo de recuperação, numa analogia clara a um viciado em tratamento.
Não pode me demitir. Eu me demito! Acha que pode me substituir? Não será a mesma coisa.
É com este diálogo que Sheen abre a série, demonstrando pra seus pacientes como extravasar a raixa diante um boneco (que bem podia ser um executivo da Warner Bros). As provocações aos produtores de Two and a Half Men param por aí. mas Anger Management realmente gira em torno disto, seja ao longo do primeiro episódio, seja no seguinte, também exibido no dia 28 de junhos nos EUA: é um sofisticado projeto de gestão de crises, para Charlie Sheen mostrar que deu a volta por cima, pedir desculpas aos amigos e família, e se reaproximar do público. Mas Anger Management não é uma comédia paz e amor – Charlie Goodson não é muito diferente de Charlie Harper, talvez com um pouco mais de caráter e com menos recursos, mas igualmente mulherengo e boêmio. Para os fãs de Two and a Half Men, Anger Management não deve desapontar.
Com um personagem tão familiar e um texto construído especialmente para ele, Sheen aparece bem na série. Ele não é mais aquele Charlie dos primeiros anos de Two and a Half Men (provavelmente nunca mais será), mas está bem o bastante para não desapontar. E a série, é preciso dizer, não é só dele. Os produtores fizeram uma boa seleção de elenco, garantindo um bom time de comediantes para fazer companhia: Selma Blair, que se revelou ótima atriz de comédias em Kath & Kim, é a terapeuta/amante; Shawnee Smith, que era a enfermeira louquinha de Becker, aparece ruiva como a ex-esposa de Charlie; Daniela Bobadilla, que esteve em Awake, é a filha adolescente; entre os pacientes estão o veterano sulista Barry Corbin (One Tree Hill), a sexy Noureen DeWulf (Hawthorne) e o paspalhão simpático Derek Richardson (Men in Trees); Michael Boatman, que atuou ao lado de Sheen em Spin City, é o vizinho; e até Brian Austin Green faz uma ponta no piloto.

Não tivesse Charlie Sheen, verdade seja dita, Anger Management seria uma comédia excêntrica, destas que dificilmente passam da primeira temporada. O episódio piloto foge da fórmula convencional de uma comédia e isto não é necessariamente uma coisa boa – depois de 13 minutos somos apresentados a 15 diferentes personagens, número que já seria assustador em um drama. E, superado o elemento surpresa, Anger Management vai ser revelando uma sitcom bem convencional, careta até, quando poderia ser mais do que isto (falta gás, o mesmo problema que vimos este ano em Are You There, Chelsea?, da Chelsea Handler).
Mas a questão não é exatamente esta. A questão é que pouco mais de um ano após uma dos maiores crises de bastidores da história da TV americana, o nosso clown favorito voltou. E Anger Management pode até não ser o show que sonhávamos, mas Charlie Sheen já realizou o feito que se propôs: ele não precisa mais provar pra ninguém que é um vencedor.
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