Eu quero uma indicação ao Emmy para The Wire

Cena de The Wire

É pouco provável que muitos conheçam ou tenham visto The Wire pela nossa HBO. Estamos na quarta temporada, e, até agora, o canal nunca fez uma publicidade digna da série, nunca aquele negócio gigantesco que Roma ganhou. Tampouco vimos um DVD chegar às lojas do país – nossos vizinhos latinos têm. Ou seja, é muito pequeno o leque de chances de se assistir a uma série como essa, e quando há o caso do boca-a-boca, é tardio; o telespectador vai ver, e não entende direito. Acho um absurdo. The Wire é, na opinião deste que vos escreve, a melhor série da atualidade. E se eu quero que The Wire seja indicada ao Emmy, além da questão da justiça, e também para propagar essa qualidade que parece não ter limites. Quem sabe com esse empurrão, a HBO acorda e faz um propaganda decente, além de providenciar um box de DVDs para cada temporada?

Veja só: o episódio do último domingo, Misgivings, é um dos melhores que eu já vi de uma série de televisão. Há uma cena, pelo final, digna de entrar para o hall de adoração do Cinema Extremo, se fosse em um filme. Também, uma complexidade quando fala de política, das entranhas da vida no gueto, da convivência em complexos educacionais (profissionais e estudantes) e do comportamento da polícia quanto a tudo. Costuma-se chamar The Wire de “série policial”, mas isso é apenas uma parte do conteúdo. O que é incrível em The Wire será sempre a forma como trata Baltimore, como nos dá um panorama amplo de tudo aquilo que jamais conheceremos da cidade, mesmo visitando-a bem. O resto todo fica para o turismo. Obviamente (porque ninguém pensa tão pequeno), fala-se de Baltimore, mas fala-se, simultaneamente, de várias outras cidades ao redor do mundo. E – precisa dizer? – é tudo verdade.

Essa quarta temporada, a três episódios de acabar na HBO brasileira, é provavelmente a melhor de todas, um primor de texto, direção e elenco (ainda que não dê para indicar um ator ou atriz como grande destaque, porque todos estão tão na mesma linha). É o momento certo para receber uma indicação ao Emmy de melhor série de drama. No passado, apenas uma citação na categoria de roteiro foi recebida. É inacreditável.

Mas se o Emmy nunca amou The Wire, dando-lhe muitas indicações, há uma razão para isso, e eu posso até arriscar qual é. Diferentemente de 24 Horas, Lost ou Família Soprano, vencedores anteriores, assim como de qualquer outra série de sucesso (The Wire não é sucesso nem nos Estados Unidos), como Dexter ou Friday Night Lights, não há uma trama acolhedora, uma trama ousada (Lost) ou tensa (Sopranos) que ainda assim nos dê algum conforto ou carinho ao telespectador (e/ou votante). É quase impossível amar The Wire, porque aqui não há romance ou drama que instigue o telespectador a pensar sobre o final, sobre o desenrolar do novelo – como também não há na rotina da polícia, das esquinas ou dos políticos. Tudo aqui é (perdão pelo clichê) cru e nu, num nível talvez ímpar na televisão atual. Resultado: é muito mais fácil admirar The Wire do que amar. Mas admiração não ganha voto.

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