Fox não exibirá episódio dos Simpsons que satiriza governo Perón

Cena de Os Simpsons

Qual a série mais popular do canal Fox? A resposta é fácil: Os Simpsons. Ao longo de 19 temporadas e mais de 400 episódios, o desenho animado com seu humor irônico deram audiência ao canal, num casamento bem sucedido. Até agora.

Numa inédita decisão, a Fox pela primeira vez na história não exibirá um episódio da série. É o episódio E. Pluribus Wiggum, o décimo da temporada, que faz referência a acontecimentos históricos da Argentina.

A decisão da Fox foi divulgada em uma nota distribuída no país, reproduzida por jornais como o Lá Nacion:

Ante a possibilidade da emissão do episódio de Os Simpsons E. Pluribus Wiggum contribua para reabrir feridas muito dolorosas para a Argentina, a Fox tomou a decisão de não exibí-lo.

A informação foi publicada também no Brasil, em sites como a Folha Online. O que não foi divulgado, e foi confirmado pelo TeleSéries junto a assessoria do canal Fox, é que o episódio também não irá ao ar nos demais países da América Latina.

Em outras palavras, uma questão política e histórica regional acabará atingindo a todos os países do continente, incluindo o Brasil.

O episódio – se exibido na ordem cronológica, E. Pluribus Wiggum deveria ter ido ao ar por aqui no dia 27 de julho. Nos Estados Unidos, o episódio foi ao ar no dia 6 de janeiro e desde que seu conteúdo foi divulgado, provocou acalorados debates na Argentina.

A polêmica toda é causada por um simples, mas hilário, diálogo entre os imbecis personagens Carl e Lenny. Em uma discussão no bar do Moe sobre os males da democracia, Carl diz:

Eu realmente gostaria de uma ditadura militar como a de Juan Perón. Quando ele desaparecia com você, você permanecia desaparecido.

Ao que Lenny retruca:

E ele ainda era casado com a Madonna.

O ex-deputado peronista Lorenzo Pepe chegou a pedir a proibição da exibição do episódio ao Comitê Federal de Radiodifusão e Televisão, por considerar a piada lesiva à memoria do presidente. A denúncia não foi adiante. Segundo informações da BBC, o órgão alegou que não exerce censura, e apenas faz um controle posterior das exibições se houver alguma requisição. A decisão de não exibir o episódio partiu mesmo do canal.

A alegação da Fox para não exibir o episódio, no entanto, não é porque ele desagrada aos peronistas como Pepe. O motivo, segundo representante do canal entrevistado pela agência EFE:

O assunto dos desaparecidos é muito sensível e não pode ser parte de uma piada.

O TeleSéries conversou extra-oficialmente com um representante do canal, que repetiu este mesmo argumento.

O vídeo pode ser acessado abaixo, com legendas em espanhol:

A História – Os críticos do episódio alegam que o seriado cometeu um erro histórico, ao relacionar Perón com os desaparecimentos do último governo militar argentino, ocorrido de 1976 a 1983.

Os defensores do governo Perón também criticam o uso do termo “ditador” pela série. O político governou a Argentina por três vezes, sempre eleito pelo voto.

O governo de Perón, no entanto, ficou conhecido pela dureza com que reprimia adversários, pela ideologia fascista e por ter colaborado com o nazismo.

E o que todos os fãs de Os Simpsons sabem é que boa parte do humor da série está em provocar confusão e distorcer fatos. O mesmo aconteceu quando a família Simpson visitou o Brasil no episódio O Feitiço da Lisa no Brasil (Blame it on Lisa). O episódio desagradou a Embratur (Empresa Brasileira de Turismo), que ameaçou processar os produtores da série. A Embratur e o Governo Federal, no entanto, em momento algum ameaçou censurar o episódio ou o seriado – que foi ao ar na Fox e também na rede Globo.

O Brasil também foi citado posteriormente no episódio The Wife Aquatic, em uma cena em que Bart e Lisa afirmavam que o país foi o pior lugar onde eles já estiveram. Na dublagem, a referência ao Brasil desapareceu. Esta, portanto, não é a primeira vez que o canal decide editar o conteúdo da série para não polemizar com seus telespectadores.

Questionamentos – A decisão do canal de não exibir o episódio na Argentina é compreensível em vários aspectos. O país viveu durante muitos anos sob forte repressão e a democracia ainda é considerada por muitos uma instituição frágil na América Latina. Mas tão frágil a ponto de ser balançada com uma piada em um programa de uma emissora de TV por assinatura?

A principal questão, no entanto, é a decisão de estender esta decisão a toda a América Latina. É justo termos nosso acesso a entretenimento vetado por uma questão política que não nos diz respeito? Afinal, não existe problema de tecnologia que impeça o canal de exibir o episódio nos demais países. Basta o bom senso dos executivos para que o programa vá ao ar no Brasil.

Ficamos com a sensação de que a Fox, que tem seu escritório central em Buenos Aires, se sensibilizou demais com a questão, esquecendo que opera um negócio e que atende a milhões de outros telespectadores na América Latina, que esperam ver todos os episódios de sua série favorita exibidos.

Por fim, repare que em momento algum do texto, até este momento, usamos a palavra censura.

Cabe ao telespectador julgar se o canal está ou não censurando uma obra.

E, se estamos diante de um ato de censura, estamos também diante de um paradoxo: afinal o canal estaria utilizando a censura justamente para aliviar o fardo daqueles que perderam os seus familiares, que morreram lutando por liberdade num dos períodos mais negros da história da Argentina.

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Paulo Serpa Antunes: é jornalista e trabalha com produção de conteúdo para Internet desde 1995. Atualmente é editor de internet do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Foi o fundador do TeleSéries, em 2002. Fã de The West Wing, The Shield, Família Soprano e Ed, entre outros shows.
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