Retrospectiva 2006 – IV – As legendas e a explosão do download

Logomarca de campanha que circulou pela Internet em 2006

Eu já vi os seis primeiros episódios da terceira temporada de Lost. Também assisti todos os episódios já lançados de Heroes. “Grande coisa”, pode me dizer o leitor ou a leitora. Provavelmente você também viu. Assim como deve ter assistido algum episódio de Ugly Betty, Dexter ou Studio 60 On The Sunset Strip.

Agora, um pequeno detalhe aos desavisados: nenhuma destas séries está em exibição no Brasil. São todas inéditas e algumas não têm sequer previsão de estréia na televisão paga ou aberta por aqui. Tudo foi possível graças à velocidade da internet.

O download de seriados foi uma das principais polêmicas de 2006. A história virou até caso de polícia. Em outubro, sites que ofereciam links ou downloads para seriados e suas respectivas legendas foram alvo de uma operação da Polícia Federal e de uma ofensiva jurídica da Associação de Defesa da Propriedade Intelectual (Adepi).

O fórum LostBrasil – que oferecia legendas de Lost, Heroes, Nip/Tuck e Dexter – recebeu um comunicado da Adepi solicitando a suspensão do fornecimento de legendas sob pena de que fossem adotadas medidas mais severas. A denúncia teria sido feita pelo Sony Entertainment Television (também dona do AXN, que exibe Lost no Brasil) e pela Buena Vista Home Entertainment, que produz a série.

Como quem tem, tem medo, o responsável pelo site, Daniel Melo, retirou a seção de legendas do ar. Apesar do trabalho ser feito voluntariamente e oferecido de graça, o responsável pelo departamento jurídico da Adepi (que representa estúdios de TV e cinema no Brasil), Clayton Jorge, afirmou que a produção de legendas sem autorização do estúdio configura crime de violação de direitos autorais.

A polêmica em torno dos downloads de séries e suas legendas começou algumas semanas antes, com a operação I-Commerce, da Polícia Federal, no dia 16 de outubro (assunto já abordado aqui no TeleSéries). Desde então, sites com legendas e links para download de séries saíram do ar em progressão geométrica.

No entanto, ao mesmo tempo que muitos endereços foram fechados ou sumiram “voluntariamente”, outras páginas foram criadas para oferecer legendas e links para download de seriados. Blogs, comunidades no Orkut e listas de discussão continuaram a operar normalmente e os fãs acompanharam suas séries sem nenhuma interrupção.

Para quem não tem internet, ou não possui banda larga, o sempre ágil comércio popular está disposto a atender a demanda. Localizado em plena Avenida Paulista, o Stand Center é uma meca do “importabando” em São Paulo. Câmeras, games, perfumes, roupas, brinquedos e todo o tipo de quinquilharia são facilmente acessíveis no coração financeiro da maior cidade brasileira.

De uns tempos para cá, os DVDs com seriados são os novos hits das lojas locais. Uma pesquisa informal entre os vendedores revela que os filmes perderam espaço para os programas de televisão na preferência dos compradores. Heroes é o grande sucesso de vendas no momento.

O acesso aos seriados antes mesmo de sua exibição no Brasil parece um caminho sem volta. Se proibirem o download e apreenderem todos os DVDs dos camelôs, restam ainda softwares como o TVU Player e o Max TV. Com eles, é possível assistir às séries ao mesmo tempo que a audiência americana.

Resta aos estúdios e canais de televisão encontrar uma saída para contornar o prejuízo. Ações policiais e judiciais podem dar resultados pontuais, mas acabam gerando mais indignação e novas formas de driblar as proibições. A indústria fonográfica preferiu este caminho e hoje está em um beco sem saída, vencida pela competição que tornou o CD um item obsoleto.

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Ale Rocha:
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