Review: House – One Day, One Room

Cena de One Day, One Room
Série: House
Episódio: Um Dia, Um Quarto (One Day, One Room)
Temporada:
Número do Episódio: 58
Data de Exibição nos EUA: 30/1/2007
Data de Exibição no Brasil: 31/5/2007
Emissora no Brasil: Universal

Three Stories, No Reason e One Day, One Room. O que estes episódios têm em comum? Além de terem o roteiro assinado pelo criador da série, David Shore, eles também possuem a característica de serem totalmente diferentes da estrutura tradicional da série e são bem diferentes entre si. Se no primeiro entendemos tudo que ocorreu com sua perna, conhecendo um pouco mais da história de House, no segundo entramos em sua cabeça e tivemos um belo estudo psicológico dele. Neste estamos num outro estágio da série, é abordado assuntos e problemas que são difíceis para ele lidar ou aceitar.

Na primeira parte temos uma série de casos da clínica, porque Cuddy o faz trabalhar lá depois do que fez por ele no último episódio. Temos uma incrível seqüência, com pacientes se auto-examinando após uma aposta feita entre os dois. E tudo fluindo de uma maneira fantástica, com uma naturalidade admirável. E eis que entre esses casos surge a paciente da semana, uma garota que contraiu uma DST após ter sido violentada e que engravidou. Sem quebra cabeças, sem nada fisicamente errado. Não há nada que House possa fazer. E então o episódio toma um rumo completamente diferente do que vinha tendo, mas fluindo.

Ela se apega ao doutor – por este ter sido seu primeiro contato, ou por sua sinceridade, ou por não a tratar diferente, ou mesmo por seu carisma natural. Ele fica sem reação, sem entender aquilo, uma situação sem sentido, sem lógica. E tudo que ele faz é buscar um sentido em tudo, buscar lógica. E esse choque entre os dois é o centro e a maravilha desse episódio. Paralelo a isso, Cameron também encontra mais um teste em seu caminho, num caso também emocionante.

Num episódio onde os diálogos ditaram os rumos é incrível saber que este foi o episódio com maior audiência da série, com 27,34 milhões de espectadores e segunda maior audiência de uma série na temporada. Isso sem falar na discussão sobre existência de Deus e aborto. House e série vão na contramão do óbvio e assumem a mais polêmica das posições – Deus não existe e pró-aborto. Mas o legal é que é amplamente discutido os porquês durante todo o episódio. O que fica claro é: discordamos, mas por que não podemos discutir civilizadamente?

Já deu pra perceber porque achei esse episódio maravilhoso. E se a força do episódio são os diálogos, vamos a eles.

Inicio até a revelação – Como posso te ajudar nessa linda manhã?

Inicia-se o episódio direto, sem frescuras. O doutor entra na sala de sua superior, ela pede para ele ficar na clinica. House recusa. Tudo que foi visto no último episódio é relembrado nesse momento. Um pedido meio desesperado de Cuddy, ele em respeito cumpre. Mas nada é assim, bonitinho entre eles…

Você irá fazer. Me deve isso, te mantive fora da cadeia, posso te pôr de volta.

Falsária.

Criminoso.

Vem o tédio, House tenta se livrar de alguns pacientes. Ele é assim, gosta de desafios, pelo menos que alguém que vá lá porque esta realmente mal. E quando encontra alguém assim, não nos surpreendemos com sua atitude. Quando um homem sai correndo pelo saguão do hospital ele o imobiliza e lhe injeta um remédio.

O que você aplicou nele?

Um paralisante muscular.

Por que fez isso?

Bom, ele tinha que parar de gritar.

É engraçado notar que mesmo no intuito de enganar sua chefe, House ainda assim tenta estimular seus pupilos. Uma nova lição aprendida por eles ou seria uma velha lição…

Enquanto estão nisso, coloque álcool no ouvido dele e remova a barata.

House encontra um refúgio, um lugar para se isolar e observar as pessoas.

A beleza desse lugar é que é o último lugar que a Cuddy irá me procurar.

Paraíso descoberto, Cuddy ameaça House mais uma vez:

Então é clinica ou cadeia?

Isso.

E depois será, terminar a papelada ou ir para a cadeia. Ajudar a levantar fundos ou ir para cadeia. Faça seu trabalho ou vá pra cadeia. Acho que prefiro ir para a cadeia.

O ponto de virada vêm. O que no começo parecia mais um episódio normal, depois pareceu que seria um dia para se divertir na clinica com o tio House se transforma em uma caso que o doutor não sabia lidar.

Preciso de alguém para cobrir minha paciente.

House, você se comprometeu…

Ela foi estuprada. Acha que sou o médico certo pra ela?

Cena de One Day, One RoomUm Dia, Um Quarto – Cameron e paciente

Tumor de 6 centímetros no pulmão direito, câncer inoperável. Cameron, de uma garota deslumbrada que queria mudar o mundo, a uma mulher que já o enxerga um pouco melhor, se vê com este paciente terminal, que reflete seu estado atual.

Está tudo bem se eu dormir aqui está noite? Está frio lá fora.

Em seu estágio final, o paciente resolve morrer em dor, sem medicamentos para amenizar tudo. Ele busca fazer a diferença por ter vindo a esse mundo, mas o que nos faz ser eternos? Como fazemos à diferença? É ele que diz as frases abaixo:

Porque preciso que se lembre de mim. Ter alguém para se lembrar de mim.

Se eu morrer em paz, serei apenas mais um paciente. Mas se eu morrer sofrendo…

Só preciso morrer sabendo que algo estava diferente porque eu estava aqui.

Cameron entende o paciente e respeita seu desejo bizarro. Ela o acompanha em seus últimos momentos agonizando. Ele tomou uma decisão incomum, ele será lembrado.

Um Dia, Um Quarto – House e paciente

Um pedido por House, insólito. Cuddy não entende, o próprio não entende, eu não entendo, ninguém entende. Questionamos. E o que há para o doutor fazer nesse caso?

Por que não quer mais me tratar?

Eu nunca quis te tratar, o fato de você ter sido estuprada… Não é do meu interesse. Não é nada pessoal. Não tem o que tratar, você está fisicamente saudável.

E quando o racional se depara com o irracional:

Eu quero que seja meu médico.

Por quê?

Eu não sei.

Tem que ter uma razão, pra tudo se tem uma razão.

Mas como a tratá-la? Como agir com ela? Quando não sabemos para onde seguir, pedimos conselhos. Mas pessoas diferentes têm opiniões diferentes. Foreman indica um lado para ele seguir, Cameron outro. Chase diz que ele está certo. E o episódio abre espaço para Houseismos como este:

Ao conversarmos sobre nada, nada irá mudar.

E o tempo realmente cura tudo? Num momento difícil, é fácil tentar se apegar nesses ditos populares, em otimismos generalizados. Mas é compreensível, encarar a realidade é duro.

É o que as pessoas dizem, não é verdade. Fazer coisas é o que mudam as coisas. Não fazer nada, deixa as coisas como elas estavam.

A paciente pergunta como o cara a ter estuprado faz sentido. A cena foi mais uma vez ótima, assim como ver um embate desses transcorrer tão bem.

Somos animais desprezíveis rastejando pela terra. E porque temos cérebros, se tentarmos com muito esforço, ocasionalmente podemos aspirar alguma coisa que não seja puro mal.

Após tudo isso, House acaba mais perdido do que antes e ela acaba sedada. Uma seqüência de cenas brilhantes com conselhos diferentes sendo dados por cada um de seus conhecidos. O melhor é também o mais inusitado:

Diga a ela… A mantenha dormindo.

Compartilhar um segredo não dá certo quando uma das partes mente, o doutor percebeu isso. O nome do episódio vai aos poucos se mostrando, vamos entendendo o que ele quer dizer. Vamos entendendo porque ela se sente ligado a ele. Além disso, vamos acompanhando a bela interpretação da Katheryn Winnick.

Você baseia a sua vida toda em quem está no quarto com você?

Vou basear esse momento em quem está no quarto comigo. A vida é isso, uma série de quartos. E quem fica preso conosco nesses quartos, depende do que nossas vidas são.

A paciente está grávida, vêm à tona o debate sobre aborto. Ela contra, ele a favor. Debate é sobre argumentações e isso é o que House gosta. Após tantos pedidos para conversarem, ele se empolga com algum assunto. O debate é aberto e corre de forma natural, dois interessantes pontos de vistas.

Isso é assassinato.

Verdade. É uma vida e você deve acabar com ela.

Deus existe? Ele estaria testando a garota? Interessante notar que um tema é meio ligado ao outro, um se apóia ou outro. A trilha sonora no episódio, sempre leve e dando um clima de um conto sendo contado, foi importante para a experiência.

Se acredita na eternidade, então a vida é irrelevante. Assim como um inseto é irrelevante para o Universo.

House finalmente aceita, está preso no quarto com ela. Ele começa a se importar com a paciente, Cuddy finalmente tem sucesso em uma tentativa de mudar o doutor. Mas fica ainda a pergunta, por que a garota o escolheu?

Tem algo em você, como se estivesse ferido também.

Quando finalmente consegue partilhar uma de suas experiências de quando jovem, um de seus segredos, House “cura” a garota, e finalmente resolve contar sua história. Ela aborta. E mesmo apesar do final, ainda fico pensando se seria verdade ou não sua historinha de que seu pai era rígido com ele, que era forçado a dormir no jardim ou tomar banho frio, caso o desobedecesse. Mas seguimos a vida como o doutor.

Vai continuar acompanhando ela?

Um dia, um quarto.

Leia outros textos sobre:
Anderson Vidoni:
Leia outros textos de Anderson Vidoni.