Spoiler: o final que Kyle XY não merecia

No dia 16 de março o canal americano ABC Family exibiu o series finale de Kyle XY, que, ainda no ínicio desta terceira temporada, recebeu a notícia de que seria cancelada. Até aqui tudo bem, se não fosse o final horroroso que a série teve. Fiquei por alguns dias procurando em alguns sites gringos se aquele episódio era apenas o final da primeira parte da temporada, como já havia acontecido no ano anterior. Mas não. Era mesmo o fim. E depois fiquei pensando: como é que eles fizeram isso?
Nunca assisti Kyle XY pelo seu lado sci fi, até porque, não é um gênero que aprecio muito, apesar de acompanhar algumas séries e de gostar de muitos filmes de ficção científica. O que me levou a acompanhar a estória de Kyle foi pelo seu jeito de ser se relacionar com a sociedade. O roteiro sempre soube utilizar muito bem isso, quando ele foi acolhido pelos Traggers, quando ele começou a ir para o colégio, quando ele iniciou amizades e um relacionamento com Amanda.
Este drama sempre foi o principal para mim, ainda que esperasse pelas respostas que o programa teria que dar para explicar o porquê dele não ter umbigo e coisas do tipo.
Mas isso era algo secundário dentro da real proposta da série: mostrar o impacto de Kyle na família Tragger (e vice-versa) e também a maneira como ele reagia para entender certas convenções que estavam impregnadas na sociedade. A segunda temporada se iniciou e com ela fomos apresentados a Jessi, que é a outra metade deste código genético. Se o homem é formado por XY e a mulher por XX, seria até um pouco óbvio, que, em algum momento, teríamos qiue ver a outra metade do experimento genético. O mesmo que aconteceu com Kyle, também aconteceu com Jessi.
Os processos, claro, foram diferentes. Enquanto que Kyle era uma pessoa bastante inofensiva, Jessi era o contrário. Muito mais agressiva e determinada, parecia um experimento cheio de complicações. E os dois perseguiram juntos por respostas. Kyle conheceu o seu criador, Adam Baylin. Jessi conheceu a sua mãe, Sarah. Já a partir daqui a série começou a ter defeitos. O roteiro pouco enquadrou estes dois personagens e tudo ficou muito vago, por um tempo. O treinamento de Kyle com base nos ensinamentos de Adam foram até bem desenvolvidos em grande parte da segunda temporada, mas isso não consolidou basicamente nada.
Este vazio só tomou proporções maiores na transição entre o fim da segunda temporada e o começo da terceira. A série começou com um bom episódio, colocando Kyle em perseguição à Latnok para libertar Amanda e, logo em seguida, trazendo uma trama que poderia render alguma coisa quanto ao chip que foi colocado no cérebro dela. Porém, nada disso engrenou. As resoluções para o que havia sido apresentado na season premiere teve resoluções fáceis – este sempre foi um problema da série. Por um momento, Kyle XY tentou transformar o namoro entre o personagem-título e Amanda em um drama muito maior, mas também sem sucesso.
O tempo passava, o cancelamento já era uma realidade e os criadores continuaram apresentando tramas e situações que beiravam o ridículo como, por exemplo, a cena em que Lori, Declan e Hillary ficam numa disputa idiota para resolver os seus problemas de relacionamento que afetaram a amizade entre as duas. Sem contar que Nicole Trager, antes um personagem de extrema importância dentro da estória, ficou completamente sem função a partir do momento em que a série deixou de lado as relações sociais para se basear muito mais na ficção. Se as duas coisas fossem colocadas de maneira equilibrada, talvez uma trama pudesse complementar a outra, e não anulá-las.

Em meio a tantos problemas, Kyle XY pegou o mal das novelas brasileiras em deixar para resolver tudo no último capítulo – ou nos dois últimos, como preferir. Em apenas dois episódios, ele havia descoberto quem era Michael Cassidy, os seus planos, o grupo de fachada criado pela Latnok e uma maneira para interromper a produção de uma outra cápsula com o mesmo sistema genético que Kyle possuía. O pior de tudo foi ele ter descoberto que Cassidy era o seu irmão e, “do nada”, o episódio acabar. E ficamos perplexos por um certo momento, mas depois voltamos ao normal e vemos o quanto fomos enganados e o quanto necessitamos de uma conclusão. Se teremos? É provável que não!
Vinícius Silva é editor do weblog Sob a Minha Lente.
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